O caroço apareceu na parte de trás da coxa. Ficou vermelho, quente e tão dolorido que sentar virou problema. No terceiro dia, no banho, ele abriu sozinho e saiu mais pus do que você esperava.

A dor aliviou na hora. Só que no lugar do caroço ficou uma abertura, a pele em volta continua vermelha, e a pergunta agora é outra: e isso aí, como fecha?

É normal se assustar com o tamanho do buraco. A ferida que sobra de um furúnculo não cicatriza como um corte: ela fecha de dentro para fora, e é isso que muda o cuidado dos próximos dias.

O que é um furúnculo, e por que ele deixa uma ferida?

Furúnculo é uma infecção que começa na raiz de um pelo (o folículo piloso) e desce para o tecido embaixo da pele, formando uma bolsa de pus — o que se chama de abscesso. A bactéria mais comum é o Staphylococcus aureus, que vive na pele e no nariz de muita gente sem causar nada.

Enquanto o pus está preso, a região incha, endurece e dói. Quando ele sai, o alívio é imediato, porque o que doía era a pressão. Mas a bolsa que estava cheia agora está vazia, e é essa cavidade que vira a ferida.

Ela não recebe ponto de propósito. Precisa fechar de baixo para cima, com tecido novo preenchendo a cavidade antes de a pele fechar por cima — se a pele fechasse primeiro, o espaço vazio embaixo voltaria a acumular pus. Esse modo de cicatrizar tem nome: segunda intenção.

Fonte: Imagem gerada por Inteligência artificial

Pode espremer o furúnculo?

Não esprema. Apertar não tira o pus para fora: empurra parte dele para os lados e para baixo, para dentro do tecido que ainda estava sadio. É assim que uma infecção pequena vira uma maior.

Enquanto é só um caroço duro e dolorido, sem ponto de pus, não há o que drenar. Nessa fase a compressa morna ajuda: bolsa térmica com água morna, de 15 a 20 minutos, algumas vezes ao dia. O calor aumenta a circulação e pode facilitar a saída espontânea.

Quando o furúnculo amolece e ganha a ponta amarelada, ele precisa ser aberto — e quem abre é o profissional de saúde. A drenagem é o tratamento estabelecido para furúnculo grande e para abscesso: o corte no lugar certo esvazia a cavidade inteira, coisa que o aperto em casa não faz.

Como cuidar da ferida do furúnculo em casa?

O cuidado em casa tem três objetivos: manter a ferida limpa, mantê-la coberta e não deixar que ela seque.

  • Lave com soro fisiológico. Antisséptico colorido ainda esconde a cor da ferida de quem for avaliar você;
  • Cubra com uma cobertura que mantenha a ferida úmida. Ferida que seca e cria casca demora mais para fechar, porque o tecido novo precisa atravessar a crosta. Gaze seca no fundo gruda e machuca na retirada, e algodão solta fiapo;
  • Troque quando o curativo saturar ou molhar, e não em horário fixo. No começo sai bastante secreção e a troca é mais frequente; conforme a cavidade diminui, você espaça;
  • Lave as mãos antes e depois de cada troca. A mesma bactéria que causou o furúnculo viaja de uma parte do corpo para outra pela mão;
  • Não divida toalha nem lâmina de barbear enquanto a ferida drena. São o caminho mais comum de a bactéria circular dentro de casa.

Qual cobertura usar em cada fase é decisão de quem examina a ferida, e muda conforme a cavidade vai ficando rasa.

Fonte: Imagem gerada por Inteligência artificial

Quando a ferida do furúnculo vira sinal de alerta?

Procure atendimento no mesmo dia se aparecer:

  • Febre, ou aquela moleza no corpo todo;
  • Vermelhidão que se espalha para longe da ferida, ou um risco vermelho subindo pelo braço ou pela perna;
  • Dor que volta a aumentar depois de já ter aliviado, com a região endurecendo de novo — costuma ser sinal de que sobrou pus preso.

Nos três casos, vá ao pronto-socorro ou à unidade de saúde ainda hoje: é a avaliação médica que decide se precisa de nova drenagem, de antibiótico, ou dos dois.

Se você tem diabetes, faz quimioterapia ou usa medicação que baixa a imunidade, não espere o furúnculo abrir. Procure avaliação já no começo, quando ainda é caroço.

Por que os furúnculos ficam voltando?

Furúnculo de repetição é motivo de investigação médica. Vale procurar a sua, porque cada uma leva a uma conduta diferente:

  • Colonização. O Staphylococcus aureus mora no nariz e nas dobras da pele de parte das pessoas sem dar sintoma, e recomeça dali sempre que encontra uma porta;
  • Drenagem incompleta. Se sobrou pus numa parte da cavidade, ele volta a crescer dali;
  • Outra doença no mesmo lugar. Se os caroços voltam sempre na mesma região, pode não ser furúnculo — hidradenite supurativa na axila, na virilha ou embaixo da mama, e cisto pilonidal no sulco entre as nádegas.

Quem cuida da ferida depois que o furúnculo drena?

Quem cuida da ferida é o enfermeiro estomaterapeuta. A estomaterapia é a especialidade da enfermagem em feridas, estomias e incontinências. Esse profissional avalia a lesão, escolhe a cobertura mais adequada para cada fase da ferida, remove o tecido morto, cuida da pele em volta, controla a dor da troca do curativo, reconhece a infecção cedo e orienta o curativo em casa.

O médico conduz a drenagem, o antibiótico quando é o caso e a investigação dos furúnculos que voltam. O estomaterapeuta conduz a ferida, troca após troca.

Perguntas rápidas

Quanto tempo a ferida do furúnculo demora para fechar? Não existe prazo único: quem manda é o tamanho da cavidade que sobrou. Como ela fecha de baixo para cima, a abertura na pele é a última parte a sumir. Acompanhe a direção: a cada troca ela deve estar um pouco menor. Ferida que parou de diminuir precisa de reavaliação.

É normal colocarem gaze dentro do buraco? É uma prática comum, chamada tamponamento. Os estudos que compararam drenar com e sem tamponamento não acharam vantagem dele para evitar que o abscesso volte, e as trocas doem mais. Quem decide é quem examina a ferida — mas diga se está doendo: a dor faz parte da avaliação.

Furúnculo deixa cicatriz? Pode deixar, tanto o que abre sozinho quanto o que é drenado, e a chance é maior quanto maior foi a cavidade e quanto mais tempo ela levou para fechar. Proteger do sol a pele nova nos meses seguintes ajuda a marca a ficar menos aparente.

Furúnculo drenado precisa de antibiótico? Nem sempre é necessário, quem irá decidir é o médico que examina você.

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a avaliação e o acompanhamento de um profissional de saúde.

Lisliane Medeiros — Enfermeira estomaterapeuta. Enfermagem e Residência em Saúde do Adulto e do Idoso pela USP, pós-graduação em Estomaterapia pelo Centro Universitário São Camilo.

Fonte: Enfermeira estomtaerapeuta, Lisliane Medeiros.

Referências

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Olá, sou Lisliane

Enfermeira pela USP, com especialização em saúde do adulto e do idoso pela USP e estomaterapeuta com habilitação em laserterapia. Atuo no tratamento avançado de lesões, estomias e na reabilitação de pessoas com incontinência fecal e urinária

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