Você saiu da consulta com uma indicação: usar compressão na perna. E saiu também com uma lista de dúvidas que não coube no tempo do atendimento.
Dói? Posso comprar em qualquer farmácia? Quanto tempo vou ter que usar isso? Abaixo, as respostas mais comuns, uma por uma.
O que é terapia compressiva?
Terapia compressiva é o uso de faixas ou meias que apertam a perna de forma controlada, ajudando o sangue a subir de volta ao coração. É o tratamento de base da úlcera venosa, a ferida na perna causada por má circulação nas veias.
Estudos apontam que, com compressão, a ferida cicatriza cerca de duas vezes mais rápido do que sem ela, e a dor diminui. Se você ainda não leu, o artigo anterior explica o que é a úlcera venosa e por que ela demora a fechar.

Fonte: Gerada por Inteligência Artificial
A meia de compressão dói?
Não deve doer. A sensação correta é de aperto firme e uniforme, que costuma incomodar nos primeiros dias e depois se acomoda.
Dor é sinal de que algo está errado: tamanho, força ou aplicação. As pesquisam mostram, quem usou compressão relatou menos dor, não mais.
Retire a meia ou a faixa e procure o enfermeiro estomaterapeuta ou o médico que acompanha você se aparecer dor que aumenta, formigamento, dormência, ou dedos frios, pálidos ou arroxeados.
Posso comprar a meia na farmácia por conta própria?
Não. É necessário fazer a medição da perna antes de comprar a meia. Além disso, é necessário avaliação para saber a compressão correta a ser indicada.
Saiba que em perna com circulação arterial muito comprometida, a compressão é contraindicada, pelo risco de isquemia e de necrose da pele.
Duas pernas parecidas por fora podem exigir condutas opostas. Quem define isso é a avaliação, não a embalagem.
Meia, faixa ou bota de Unna: qual é a diferença?
São três formas de aplicar a mesma ideia, em momentos diferentes do tratamento:
- Faixa ou bandagem de várias camadas — usada com a ferida aberta. Fica na perna até a próxima troca, feita pela equipe;
- Bota de Unna — bandagem inelástica com pasta de óxido de zinco, trocada periodicamente pelo enfermeiro. É a compressão mais usada no Brasil;
- Meia elástica — costuma entrar depois que a ferida fecha, para reduzir o risco de ela voltar.
Sobre a bota de Unna cabe uma ressalva honesta: um estudo brasileiro de 2024 concluiu que ela é efetiva quando comparada ao cuidado comum, mas não encontrou evidência de que seja superior às outras formas de compressão.
Quanto tempo por dia preciso usar?
Não há resposta única, porque muda conforme o tipo de compressão. A faixa e a bota permanecem na perna até a troca. A meia elástica segue o esquema definido por quem prescreveu.
O que a pesquisa mostra com clareza é outra coisa: o resultado depende do uso constante, e é aí que o tratamento costuma falhar.Um estudo mostrou o que mais leva ao abandono — dor, calor, dificuldade de calçar e a aparência da meia.
Nenhuma dessas queixas é motivo para parar por conta própria. Todas são motivo para conversar sobre trocar de modelo ou de força.
Posso caminhar e fazer exercício usando compressão?
Pode, e é recomendável. O movimento da panturrilha ajuda a empurrar o sangue para cima, e o exercício somado à compressão favorece a cicatrização.
Não precisa ser nada complicado: elevação de calcanhar e caminhadas curtas e regulares já contam. Combine o plano com quem acompanha você.
Quando isso vira sinal de alerta?
Retire a compressão e procure atendimento no mesmo dia se surgir dor forte, dedos frios ou arroxeados, dormência que não passa, ou ferida nova sob a faixa ou a meia.
Procure um pronto-socorro se aparecer vermelhidão que se espalha pela perna, febre ou calafrio.
Marque avaliação com enfermeiro estomaterapeuta cirurgião vascular se a meia ficou frouxa, se você não consegue calçar sozinha, ou se o incômodo não passou depois das primeiras semanas.
Quem cuida da ferida e da compressão?
O enfermeiro estomaterapeuta cuida das duas coisas. A compressão não é um produto que se compra. É um tratamento que se ajusta, e quem conduz esse ajuste é esse profissional: avalia, escolhe o tipo e a força, aplica a faixa ou a bota e ensina você a calçar a meia em casa.
E cuida da ferida ao mesmo tempo:
- Avaliação do leito da lesão a cada troca, para saber se ela está evoluindo ou parada;
- Limpeza e escolha da cobertura adequada para aquele momento do tratamento;
- Retirada do tecido morto (desbridamento) quando é preciso, para o tecido novo poder crescer;
- Cuidado com a pele em volta, que costuma estar ressecada, escurecida e sensível.
Não são dois tratamentos separados. Na úlcera venosa, cuidar da ferida sem tratar a circulação não fecha a lesão — e comprimir a perna sem cuidar do leito também não.
Perguntas rápidas
Preciso continuar usando depois que a ferida fechar? Sim. O consenso internacional dá a essa recomendação o grau mais forte de evidência, porque a compressão continuada é o que mais reduz o risco de a ferida voltar.
E no calor, dá para usar? O calor é uma das queixas mais citadas por quem abandona a meia. É motivo para rever o modelo com quem acompanha você, não para suspender o tratamento sozinha.
A meia pode machucar a pele? Pode. Utilizar uma meia sem a medição pode ocasionar bolha ou ferida nova e pedem avaliação antes da próxima colocação.
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a avaliação e o acompanhamento de um profissional de saúde.
Lisliane Medeiros — Enfermeira estomaterapeuta. Enfermagem e Residência em Saúde do Adulto e do Idoso pela USP, pós-graduação em Estomaterapia pelo Centro Universitário São Camilo.

Lisliane Medeiros – Enfermeira estomaterapeuta
