Você fez a cirurgia, voltou para casa e estava tudo dentro do esperado. No oitavo dia, no banho, você percebe que a linha dos pontos separou num trecho. A camiseta está manchada de um líquido rosado.
Isso assusta. Dá vontade de apertar, cobrir depressa e esperar que feche sozinho até a consulta de retorno.
A boa notícia é que essa abertura tem nome, tem causa conhecida e tem conduta. Reconhecida cedo, ela tende a evoluir melhor — e é por isso que vale entender o que você está vendo.
O que é deiscência de ferida operatória?
Deiscência de ferida operatória é a abertura de uma ferida de cirurgia que já estava fechada. Ela pode envolver apenas a pele ou atingir também as camadas firmes que sustentam a parede do corpo, embaixo dela.
Ela aparece com mais frequência na primeira ou na segunda semana depois da cirurgia, em média por volta do nono dia. Nesse período muita gente já está em casa, e é por isso que quem percebe primeiro costuma ser você.

Fonte: Imagem gerada por Inteligência Artificial
Por que a ferida da cirurgia abre?
A ferida abre quando a força que puxa as bordas fica maior do que a resistência do tecido que ainda está cicatrizando. Quase sempre há mais de um motivo somado:
- Infecção da ferida: É o fator mais associado à deiscência. A inflamação prolongada enfraquece o tecido novo justamente onde ele precisa segurar;
- Acúmulo de líquido ou de sangue embaixo da pele. Chamados de seroma e hematoma, eles afastam as camadas e criam um ambiente onde a bactéria cresce com facilidade;
- Diabetes sem controle. O açúcar alto no sangue atrasa a chegada das células de defesa e a formação de tecido novo;
- Cigarro. A nicotina fecha os vasos pequenos e reduz o oxigênio que chega à borda da ferida — é o fator que mais depende de você. Mais sobre isso no artigo sobre o cigarro e a cicatrização;
- Pouca proteína na alimentação. O corpo constrói a cicatriz com proteína, e sem ela a obra para no meio. O artigo sobre nutrição e cicatrização detalha o que priorizar;
- Excesso de peso. A camada de gordura tem menos vasos e aumenta a tensão sobre os pontos;
- Cirurgia de urgência. Sem tempo de preparo, o corpo entra no procedimento em pior condição do que entraria numa cirurgia marcada;
- Corticoide e quimioterápicos. Os dois atrasam a cicatrização. Se você usa algum deles, não suspenda por conta própria: quem ajusta é quem prescreveu.
O que fazer quando você percebe que o ponto abriu
Cubra a ferida com gaze limpa e seca, não tente juntar as bordas. Entre em contato com seu médico ou com o enfermeiro estomaterapeuta e comunique. Enquanto isso:
- Não aperte e não cole a ferida. Fita atravessando as bordas prende a secreção do lado de dentro, e é a secreção presa que infecta;
- Não passe nada além do que foi orientado. Pomada de armário, álcool, açúcar, pó de café e antisséptico colorido irritam o tecido e escondem a cor da ferida, que é o que o profissional usa para avaliar.
Quando a deiscência é emergência?
Vá ao pronto-socorro agora se acontecer qualquer uma destas três coisas:
- Aparece alguma estrutura pela ferida — alça de intestino, ou qualquer coisa que pareça estar saindo de dentro;
- A ferida molha o curativo várias vezes no mesmo dia, em quantidade que não para;
- A ferida se abriu de uma vez, depois de uma tosse ou de um esforço, com a sensação de que algo cedeu por dentro;
- Se houver febre, vermelhidão que se espalha ao redor da ferida, pus, cheiro forte ou dor que aumenta em vez de diminuir.
Nesses casos, cubra a ferida com gaze estéril e vá para o pronto-socorro. Não tente colocar nada de volta para dentro.
Quem cuida da ferida cirúrgica que abriu?
Quem cuida da ferida aberta é o enfermeiro estomaterapeuta. A estomaterapia é a especialidade da enfermagem em feridas, estomias e incontinências.
O cirurgião que te operou conduz o que é dele: a decisão de voltar ao centro cirúrgico, o antibiótico quando é o caso e o fechamento da parede. O estomaterapeuta conduz a ferida, troca após troca:
- Avalia o fundo da ferida (o leito) e mede a abertura a cada curativo, para saber se ela está evoluindo ou se estacionou;
- Escolhe a cobertura adequada a cada fase e a cada quantidade de secreção, porque o material que serve para ferida seca não serve para ferida encharcada;
- Retira o tecido morto, procedimento chamado desbridamento, para que o tecido novo tenha espaço para crescer;
- Preenche o espaço vazio quando a ferida é profunda, para que ela não feche por cima antes de fechar por baixo;
- Cuida da pele em volta, que fica frágil e amolecida pela umidade da secreção;
- Reconhece a infecção cedo e aciona o cirurgião na hora certa;
- Indica recursos além do curativo comum quando há indicação, como a terapia por pressão negativa, um aparelho que faz sucção contínua sobre a ferida, ou laserterapia.
Perguntas rápidas
Deiscência sempre precisa de nova cirurgia? Não. A superficial costuma ser tratada com curativos, fechando de dentro para fora ao longo de semanas. A profunda, que envolve a parede, em geral exige correção cirúrgica.
Quanto tempo uma ferida dessas leva para fechar? Depende do tamanho, da profundidade e do que causou a abertura. Na deiscência superficial, semanas é o mais comum.
Pode tomar banho com a ferida aberta? Não, devido o risco de infecção na ferida.
Ponto que abre é sempre infecção? Não. A infecção é o motivo mais comum, mas tensão na pele, tosse, acúmulo de líquido embaixo da pele e cicatrização lenta abrem ferida sem que haja bactéria envolvida.
Se o seu ponto abriu, o primeiro movimento é avisar hoje a equipe que te operou. Não espere a data do retorno para mostrar.
A partir daí, a ferida aberta exige avaliação e escolha de cobertura a cada troca.
Para entender como uma ferida de cirurgia cicatriza e o que interfere nesse processo, veja também o artigo sobre desafios na cicatrização de feridas após cirurgias.
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a avaliação e o acompanhamento de um profissional de saúde.
Lisliane Medeiros — Enfermeira estomaterapeuta. Enfermagem e Residência em Saúde do Adulto e do Idoso pela USP, pós-graduação em Estomaterapia pelo Centro Universitário São Camilo.

Fonte: Estomaterapeuta Lisliane Medeiros
Referências
Sociedade Brasileira de Estomaterapia (SOBEST). Intervenções nas áreas de abrangência da Estomaterapia. Lorena; 2016. Disponível em: https://sobest.com.br/wp-content/uploads/2020/10/PDF_INTERVENCOES.pdf
