Você começou a radioterapia e, nas primeiras sessões, não sentiu nada. Lá pela segunda ou terceira semana, a pele da mama começou a ficar vermelha, quente e sensível, como depois de um dia de sol forte.
Com isso vêm as dúvidas do dia a dia. Pode lavar com sabonete? Pode usar desodorante? Passa um creme? E se a pele abrir?
É normal a pele reagir. A boa notícia é que essa reação tem nome, tem um caminho previsível e tem cuidado. Saber o que esperar ajuda a cuidar melhor e a reconhecer cedo quando precisa de ajuda.
O que é radiodermatite?
Radiodermatite é a reação da pele à radioterapia. A radiação atravessa a pele para chegar até a mama, e a pele da região tratada fica inflamada: vermelha, seca, sensível e, em parte das pessoas, descamando ou abrindo.
Ela é muito comum na radioterapia da mama. A maioria das pessoas tem alguma reação, quase sempre leve. Cerca de uma em cada três chega a ter a pele aberta e molhada em algum ponto.
A radiodermatite costuma seguir este caminho:
- Começa por volta da segunda semana de tratamento e vai aumentando ao longo das sessões;
- Fica no máximo uma a duas semanas depois da última sessão. Por isso, é normal a pele piorar mesmo depois que a radioterapia acabou;
- Melhora na maior parte das vezes duas a quatro semanas depois do fim do tratamento.
Como a pele muda durante a radioterapia?
A pele passa por fases, e nem todo mundo passa por todas:
- Vermelhidão. Parecida com queimadura de sol, com calor e sensibilidade;
- Descamação seca. A pele fica áspera, descasca em pedacinhos e coça;
- Descamação úmida. A camada de cima da pele se solta, a área fica rosada, brilhante, solta um líquido claro e dói. Aparece mais na axila e na dobra embaixo da mama;
- Ferida aberta. É rara. Acontece quando a pele se rompe por inteiro.
As dobras sofrem mais porque ali a pele encosta em pele, fica úmida e tem atrito. Por isso, mamas maiores e excesso de peso aumentam o risco de a pele abrir.

Fonte: Imagem gerada por Inteligencia Artificial.
Como cuidar da pele durante a radioterapia?
O cuidado com a pele durante a radioterapia é lavar com delicadeza, evitar atrito e não passar nada que a equipe não tenha indicado. No dia a dia:
- Lave a região todos os dias, com água morna e sabonete suave, sem esfregar. Lavar não piora a radiodermatite e mantém a pele limpa;
- Seque com toques leves, com toalha macia, principalmente embaixo da mama e na axila, onde a umidade fica parada;
- Desodorante pode, se a sua equipe não orientou diferente. Use uma camada fina e não passe na pele que já abriu;
- Use roupa larga e macia, de algodão, e sutiã sem aro, ou fique sem sutiã se for mais confortável. O atrito é o que mais machuca a pele sensível;
- Proteja a região do sol, com roupa. A pele tratada queima com mais facilidade;
- Não use bolsa de água quente, gelo nem esparadrapo na área tratada. Calor, frio intenso e adesivo machucam a pele que já está sensível;
- Não passe nada por conta própria. Pomada de casa, babosa e receita caseira não têm benefício comprovado, e algumas podem piorar a reação. Antes de usar qualquer creme, pergunte à equipe de radioterapia.
O que ajuda a prevenir a radiodermatite?
Alguns cuidados têm evidência de que diminuem a reação da pele, mas todos dependem de indicação da sua equipe:
- Pomada com corticoide, receitada pelo médico, desde o início do tratamento;
- Película protetora de silicone, uma lâmina fina e transparente colada sobre a pele antes de a reação aparecer;
- Laser de baixa intensidade, também chamado de fotobiomodulação, aplicado por profissional capacitado. Mais sobre isso no artigo sobre laser no tratamento de feridas.
Pergunte no início do tratamento se algum deles faz sentido para você. Não interrompa nem adie sessão por causa da pele sem conversar com a equipe.
Quando a pele da radioterapia vira sinal de alerta?
Avise a equipe de radioterapia no mesmo dia se:
- A pele abriu e está soltando líquido;
- A dor atrapalha dormir, vestir a roupa ou levantar o braço;
- Apareceram bolhas na área tratada;
- Há sinais de infecção: pus, cheiro forte, febre ou vermelhidão que se espalha para fora da área tratada.
Se a radioterapia já acabou e a pele abriu ou não melhorou depois de quatro semanas, procure a equipe também. Não espere a consulta de retorno.
Onde o estomaterapeuta entra no cuidado da pele na radioterapia?
O enfermeiro estomaterapeuta cuida da pele que reagiu à radioterapia, principalmente quando ela abre. A estomaterapia é a especialidade da enfermagem em feridas, estomias e incontinências. O estomaterapeuta conduz a pele:
- Avalia a pele a cada consulta, para saber em que fase a reação está e se está piorando ou melhorando;
- Escolhe a cobertura quando a pele abre, com material que não gruda e que absorve o líquido, para que a troca não arranque a pele nova;
- Cuida das dobras, embaixo da mama e na axila, onde a pele abre mais e demora mais para fechar;
- Aplica o laser de baixa intensidade, quando indicado e quando o profissional é capacitado para isso;
- Reconhece a infecção cedo e avisa a equipe de radioterapia;
- Orienta o cuidado em casa, para você ou para quem ajuda, e o que observar entre uma sessão e outra;
- Acompanha depois que a radioterapia acaba, porque é nesse período que a reação fica no máximo.
Perguntas rápidas
Posso usar desodorante durante a radioterapia? Pode, se a sua equipe não orientou diferente. O desodorante não piora a reação da pele. Use uma camada fina e não passe sobre a pele aberta.
Por que a pele piorou depois que a radioterapia acabou? É o esperado. A reação da pele fica no máximo uma a duas semanas depois da última sessão e, na maioria das vezes, melhora nas duas semanas seguintes.
Posso passar babosa na pele da radioterapia? Não há evidência de que a babosa ajude, e em alguns estudos a pele ficou pior. Use só o que a sua equipe indicar.
A pele volta ao normal depois da radioterapia? A vermelhidão e a descamação costumam passar em poucas semanas. O escurecimento pode durar meses. Com o tempo, parte das pessoas nota a pele mais firme ou vasinhos aparentes na região, o que deve ser mostrado à equipe no acompanhamento.
Se a sua pele está vermelha, seca ou descascando, mas inteira, o cuidado é o do dia a dia: lavar com delicadeza, secar bem as dobras, evitar atrito e esperar o tempo da pele.
Se ela abriu, está molhando a roupa ou dói a ponto de atrapalhar a rotina, uma avaliação especializada pode ajudar a definir o cuidado adequado. Leve fotos da pele, tiradas na mesma luz, desde o início das sessões.
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a avaliação e o acompanhamento de um profissional de saúde.
Lisliane Medeiros — Enfermeira estomaterapeuta. Enfermagem e Residência em Saúde do Adulto e do Idoso pela USP, pós-graduação em Estomaterapia pelo Centro Universitário São Camilo.

Fonte: Estomaterapeuta Lisliane Medeiros
