Talvez você tenha acabado de receber o diagnóstico. Ou alguém da sua família recebeu. Junto com a notícia vem uma quantidade enorme de palavras novas, exames, consultas e decisões, e pouco tempo para entender cada uma.
É normal ficar sem chão nesse começo. Este conteúdo explica o básico sobre o câncer de mama e mostra um ponto de que pouca gente fala: a pele. A doença e o tratamento podem causar feridas, e saber disso antes ajuda a reconhecer cedo e a pedir o cuidado certo.
O que é câncer de mama?
Câncer de mama é uma doença em que células da mama passam a se multiplicar sem controle e formam um tumor. Com o tempo, esse tumor pode crescer para os tecidos em volta e chegar a outras partes do corpo.
No Brasil, é o câncer mais frequente entre as mulheres, sem contar os tumores de pele mais comuns. Homens também podem ter câncer de mama, mas é bem mais raro.
Não existe um câncer de mama só. Há tipos diferentes, e é por isso que o tratamento muda de uma pessoa para outra.
Quais são os sinais do câncer de mama?
O sinal mais conhecido é um caroço (nódulo) na mama, geralmente sem dor. Mas não é o único:
- Caroço na mama, principalmente depois dos 50 anos, ou que não some depois dos 30;
- Líquido saindo sozinho por um dos mamilos, sem você apertar;
- Pele da mama com aspecto de casca de laranja, avermelhada ou repuxada para dentro;
- Mudança no mamilo, como um bico que entrou para dentro ou que mudou de aspecto;
- Caroço na axila ou no pescoço.
Se você notou qualquer um desses sinais, marque consulta com o ginecologista ou com o mastologista. Nem todo caroço é câncer, mas todo caroço precisa ser examinado.
Como é feito o diagnóstico do câncer de mama?
O diagnóstico do câncer de mama só é confirmado pela biópsia, que é a retirada de um pedaço pequeno do tecido para análise em laboratório. Mamografia, ultrassom e ressonância mostram onde está a alteração e ajudam a decidir se a biópsia é necessária.
A mamografia também é usada para procurar o câncer antes de qualquer sinal aparecer. Sobre a idade de começar, as recomendações divergem:
- Ministério da Saúde: mamografia a cada dois anos, dos 50 aos 74 anos;
- Sociedade Brasileira de Mastologia, Colégio Brasileiro de Radiologia e Febrasgo: mamografia todo ano, dos 40 aos 74 anos.
Converse com o seu médico sobre qual faz sentido para você, principalmente se houver casos de câncer de mama na família.
Por que o câncer de mama pode causar feridas?
O câncer de mama pode causar feridas por três caminhos: pela cirurgia, pela radioterapia e, em alguns casos, pelo próprio tumor. Cada um tem um cuidado diferente.
- Ferida da cirurgia. É a mais comum. Na maioria das vezes ela fecha no tempo esperado, mas pode acumular líquido, infeccionar, abrir ou ter um trecho de pele que escurece;
- Ferida da radioterapia. A radiação deixa a pele da mama vermelha, seca e sensível. Em parte das pessoas ela descama e pode chegar a abrir. Essa reação da pele se chama radiodermatite;
- Ferida do próprio tumor. Acontece quando o tumor cresce até a pele e a rompe por dentro. É menos comum, e é dela que irei falar com mais detalhe aqui.
O que é a ferida tumoral na mama?
Ferida tumoral, também chamada de ferida neoplásica, é uma ferida causada pelas células do câncer, que crescem até atravessar a pele.
Ela pode aparecer quando o tumor cresceu sem tratamento, quando a doença volta depois do tratamento ou, em alguns casos, já no momento em que o câncer é descoberto. Às vezes é a ferida que leva a pessoa à consulta.
É uma ferida diferente das outras. Ela tende a:
- Sangrar com facilidade, até com o atrito da roupa ou na troca do curativo;
- Soltar bastante secreção, que molha o curativo e a roupa;
- Ter cheiro forte, por causa da bactéria e do tecido morto dentro dela;
- Doer, tanto no dia a dia quanto na hora do curativo.
O cheiro e a secreção costumam ser o que mais pesa. Muita gente deixa de sair de casa e de receber visita por vergonha. Isso tem cuidado, e ninguém precisa enfrentar sozinho.

Fonte: Imagem feito por Inteligência Artificial
O que fazer se aparecer uma ferida na mama?
Se aparecer uma ferida na mama sem uma causa clara, como um machucado, e ela não cicatrizar, procure o ginecologista ou o mastologista. Ferida que não fecha na mama precisa ser examinada por médico, mesmo que não doa.
Se você já está em tratamento, avise a sua equipe de oncologia. Enquanto isso:
- Não passe nada que não foi indicado. Pomada de casa, receita caseira e antisséptico colorido podem irritar a ferida e fazer sangrar;
- Não esfregue e não arranque crosta. A ferida tumoral sangra com facilidade;
- Anote o que mudou: cheiro, quantidade de secreção, sangramento e dor. É essa informação que orienta o cuidado.
Vá ao pronto-socorro se a ferida sangrar e não parar depois de alguns minutos apertando com uma gaze ou um pano limpo.
Onde a estomaterapia entra no cuidado das feridas do câncer de mama?
O enfermeiro estomaterapeuta cuida das feridas que aparecem no caminho do tratamento — da cirurgia, da radioterapia e do próprio tumor. A estomaterapia é a especialidade da enfermagem em feridas, estomias e incontinências.
O mastologista e o oncologista conduzem o tratamento do câncer: cirurgia, quimioterapia, radioterapia e os remédios. O estomaterapeuta conduz a ferida:
- Avalia a ferida a cada curativo — tamanho, fundo, secreção, cheiro e a pele em volta — para saber se ela está evoluindo ou mudando;
- Escolhe a cobertura de acordo com a quantidade de secreção e com o risco de sangrar, porque cada ferida pede um material diferente;
- Controla o cheiro, com coberturas e cuidados indicados para isso;
- Diminui o sangramento na troca do curativo, com material que não gruda na ferida;
- Planeja o curativo junto com o controle da dor, para que a troca não seja um momento de sofrimento;
- Cuida da pele em volta, que fica frágil com a umidade da secreção e com o adesivo;
- Orienta o curativo em casa, para você ou para quem ajuda, e o que observar entre uma consulta e outra;
- Conversa com a sua equipe de oncologia quando algo muda.
Na ferida tumoral, o objetivo nem sempre é fechar a ferida. Muitas vezes é deixar a vida com ela mais confortável: menos cheiro, menos secreção, menos dor e mais liberdade para sair de casa.
Perguntas rápidas
Todo câncer de mama causa ferida? Não. A ferida mais comum é a da cirurgia, que na maioria das vezes fecha no tempo esperado. A ferida causada pelo próprio tumor é menos frequente.
Ferida no mamilo pode ser câncer? Pode, mas na maioria das vezes não é. Ferida ou mudança no mamilo que não melhora precisa ser examinada pelo ginecologista ou pelo mastologista.
A mamografia confirma o câncer de mama? Não. A mamografia mostra uma alteração e indica se é preciso investigar. Quem confirma o câncer é a biópsia.
Ferida tumoral tem cura? Depende do tratamento do câncer. Quando o tumor responde ao tratamento, a ferida pode diminuir. Quando não, o cuidado com a ferida diminui o cheiro, a secreção, o sangramento e a dor.
Se você está começando o tratamento, guarde uma ideia: a pele faz parte dele. Qualquer ferida que apareça — da cirurgia, da radioterapia ou do tumor — tem cuidado próprio, e quanto antes ela é avaliada, mais simples tende a ser esse cuidado.
Se você já tem uma ferida que está demorando para fechar, que tem cheiro ou que sangra na troca do curativo, uma avaliação especializada pode ajudar a definir o cuidado adequado.
Para saber a quem recorrer em cada situação, veja também o artigo sobre quando procurar ajuda e qual especialista buscar.
Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui a avaliação e o acompanhamento de um profissional de saúde.
Lisliane Medeiros — Enfermeira estomaterapeuta. Enfermagem e Residência em Saúde do Adulto e do Idoso pela USP, pós-graduação em Estomaterapia pelo Centro Universitário São Camilo.

Fonte: Estomaterapeuta Lisliane Medeiros
Referências
Chala LF, Urban LABD. Breast cancer screening. Radiol Bras. 2023;56(4).
