Você passou a ficar mais tempo na cama. Pode ter sido uma cirurgia, uma fratura, uma internação longa, ou a cadeira de rodas passou a fazer parte do dia. E alguém já avisou: cuidado com a escara.

O aviso assusta, e com razão: escara dói e demora a fechar. Mas a boa notícia é que ela costuma dar sinal antes de abrir, e a maior parte do cuidado que evita a lesão abra dentro de casa.

O que é escara?

Escara é o nome popular da lesão por pressão: um dano na pele e no tecido embaixo dela, causado por pressão que dura tempo demais sobre o mesmo ponto. Quase sempre aparece em cima de um osso que fica perto da pele.

O peso do corpo esmaga a pele entre o osso e o colchão, ou entre o osso e o assento. O sangue deixa de chegar ali, e o tecido começa a morrer, às vezes de dentro para fora.

Do lado esquerdo, observamos uma área sem excesso de pressão, onde a circulação é saudável e o sangue flui livremente para nutrir a pele e o tecido subcutâneo. Já do lado direito, vemos o cenário crítico: quando há imobilidade, o peso do corpo faz com que o osso comprima os tecidos contra uma superfície rígida (como o colchão ou o assento de uma cadeira). Essa pressão excessiva e contínua colapsa os vasos capilares. Sem o fluxo sanguíneo adequado, a região deixa de receber oxigênio e nutrientes essenciais (um processo chamado isquemia), o que resulta na morte celular e na consequente formação da lesão por pressão.

Fonte: Imagem feita por Inteligência Artificial

O arrasto piora: quando o corpo escorrega na cama, a pele fica presa e as camadas de baixo deslizam, machucando os vasos por dentro.

Os lugares mais comuns são:

  • Cóccix e sacro, a base da coluna, que carrega o peso de quem fica deitado de barriga para cima ou sentado escorregado;
  • Calcanhares, que ficam apoiados o tempo todo na cama e têm pouquíssima gordura protegendo o osso;
  • Quadris, quando se deita de lado;
  • Ísquios, os ossos em que você se apoia para sentar.
Ilustração anatómica de um mapa de pontos de pressão no corpo humano, destacando as áreas de maior risco para o desenvolvimento de úlceras por pressão em três posições: visão dorsal, paciente sentado numa cadeira de rodas e paciente deitado em decúbito lateral.

Fonte: Guia para prevenção de lesão por pressão da USP

Sonda, máscara de oxigênio e tala também podem causar lesão por pressão na pele embaixo delas, denominada lesão por dispositivos médicos.

Como evitar escara quando se passa muito tempo deitado?

Tirar o peso do mesmo ponto é o centro de tudo. O resto ajuda, mas nada substitui a mudança de posição.

  • Mude de posição com regularidade. Não existe um intervalo que sirva para todo mundo: ele depende do quanto você se mexe sozinho, do colchão e de como a pele reage, e é combinado com quem acompanha você;
  • De lado, prefira a posição inclinada, com um travesseiro nas costas e o corpo virado mais ou menos um terço, em vez de deitar totalmente de lado. Assim o peso não cai todo em cima do osso do quadril;
Ilustração de um paciente deitado na posição de decúbito lateral a 30 graus. A imagem mostra o uso de travesseiros sob a cabeça, entre as pernas e atrás das costas para manter a postura, acompanhada de um diagrama que detalha o ângulo de 30 graus da pelve em relação ao colchão.

Fonte: Prevenção e manejo da lesão por pressão: Intervenções para prevenção e tratamento da lesão por pressão

  • Deixe a cabeceira baixa, até uns 30 graus, quando não houver outra orientação médica. Cabeceira alta faz o corpo escorregar, e o arrasto machuca o cóccix;
  • Deixe os calcanhares no ar. Um travesseiro embaixo da panturrilha, com os joelhos levemente dobrados, tira o calcanhar do colchão sem apoiar o peso no tendão;
  • Não arraste o corpo na cama. Para subir ou virar, quem ajuda você pode usar o lençol de baixo para levantar, e não para puxar;
  • Pergunte sobre o colchão. Existem colchões e sobreposições que espalham a pressão melhor do que o colchão comum. O tipo certo depende do seu risco, e vale avaliar antes de comprar.

Como evitar escara quando se passa muito tempo sentado?

Sentado, o peso inteiro do tronco cai numa área pequena, os ossos do assento. Por isso quem passa o dia na cadeira precisa de pausas de alívio.

  • Alivie o peso várias vezes ao longo do dia. Se você consegue, incline o tronco para a frente ou para um lado, ou apoie as mãos e erga o corpo por alguns instantes. Se não consegue, quem ajuda você faz essa inclinação;
  • Use uma almofada que distribua a pressão, escolhida para o seu corpo e a sua cadeira. Travesseiro comum achata e deixa de proteger;
  • Não use almofada em forma de rosca ou boia. Ela parece aliviar, mas a borda aperta um anel em volta do osso e corta a circulação exatamente onde se queria proteger;
  • Sente com o quadril no fundo do assento e os pés apoiados. Corpo escorregado na cadeira volta a jogar o peso no cóccix.

Cuidar da pele também previne escara?

Sim. Pele limpa, seca e hidratada aguenta mais pressão antes de machucar.

  • Limpe logo depois de escape de urina ou fezes, com produto suave, sem esfregar;
  • Proteja a pele da umidade com um creme ou pomada de barreira nas regiões que ficam molhadas. O artigo sobre incontinência urinária no idoso detalha esse cuidado;
  • Não massageie a região vermelha. Esfregar o ponto que já está sofrendo com a pressão machuca ainda mais o tecido de baixo;
  • Coma e beba o suficiente. Proteína e água fazem parte da defesa da pele; se o apetite caiu, isso precisa ser dito a quem acompanha você. Veja também o artigo sobre nutrição e cicatrização.

Quais são os primeiros sinais de escara?

O primeiro sinal é uma mancha vermelha que não some quando você aperta. Aperte com o dedo por alguns segundos e solte: se a pele clareia e volta a ficar vermelha, o sangue ainda está circulando. Se ela continua vermelha, sem clarear, a lesão por pressão já começou, mesmo com a pele fechada.

Em pele negra ou parda, a vermelhidão pode não aparecer. Nesse caso, fique atento a uma área mais escura, arroxeada ou brilhante, mais quente ou mais fria que a pele em volta, endurecida ou dolorida.

Procure avaliação nos próximos dias se aparecer:

  • Mancha que não clareia ao apertar e continua lá mesmo depois de tirar o peso do lugar;
  • Bolha ou pele esfolada em cima de um ponto de apoio;
  • Área roxa ou cor de vinho, mesmo sem ferida aberta. Esse sinal indica dano mais profundo e pode abrir rápido.

Quem cuida da escara e da prevenção?

Quem cuida da escara é o enfermeiro estomaterapeuta. A estomaterapia é a especialidade da enfermagem em feridas, estomias e incontinências, e a lesão por pressão está no centro do trabalho dela, antes de aparecer e depois que abriu.

  • Avalia o seu risco e monta com você o plano de mudança de posição que cabe na sua rotina;
  • Indica o colchão e a almofada adequados ao seu risco, antes de você gastar com o que não serve;
  • Examina a pele nos pontos de apoio e reconhece a lesão no começo, quando ela ainda é mancha;
  • Avalia a ferida aberta — tamanho, profundidade e o fundo da ferida (o leito) — e escolhe a cobertura de cada fase;
  • Retira o tecido morto da ferida, procedimento chamado desbridamento, quando ele atrasa o fechamento;
  • Cuida da pele em volta, que fica frágil com a umidade;
  • Orienta você e quem ajuda você — como virar sem arrastar, o que observar e quando chamar.

Fonte: Estomaterapeuta Lisliane Medeiros

Perguntas rápidas

Escara e lesão por pressão são a mesma coisa? Sim, no uso do dia a dia. Lesão por pressão é o nome usado hoje pelos profissionais de saúde, e escara é o nome popular. Para a equipe, escara também é a crosta escura de tecido morto que pode cobrir a ferida, por isso você pode ouvir a palavra nos dois sentidos.

Colchão de ar evita escara? Colchões e sobreposições especiais espalham a pressão melhor que o colchão comum e reduzem o risco. Nenhum deles dispensa a mudança de posição. O tipo mais adequado depende do seu risco, e vale avaliar antes de comprar.

Escara tem cura? A maioria das lesões por pressão cicatriza quando a pressão é retirada e a ferida é bem cuidada. As rasas fecham mais rápido; as profundas podem levar meses e, às vezes, precisar de cirurgia.

Referências

European Pressure Ulcer Advisory Panel, National Pressure Injury Advisory Panel, Pan Pacific Pressure Injury Alliance. Prevention and Treatment of Pressure Ulcers/Injuries: Clinical Practice Guideline. The International Guideline. Haesler E, editor. 3. ed. EPUAP/NPIAP/PPPIA; 2019. 

European Pressure Ulcer Advisory Panel, National Pressure Injury Advisory Panel, Pan Pacific Pressure Injury Alliance. Prevention of Pressure Ulcers/Injuries: Clinical Practice Guideline. The International Guideline. 4. ed. EPUAP/NPIAP/PPPIA; 2025. 

Associação Brasileira de Estomaterapia (SOBEST), Associação Brasileira de Enfermagem em Dermatologia (SOBENDE). Classificação das lesões por pressão – Consenso NPUAP 2016 – adaptada culturalmente para o Brasil. Caliri MHL, Santos VLCG, Mandelbaum MHS, Costa IG. 2016.

Latimer SL, et al. Repositioning for pressure injury prevention in adults. Cochrane Database Syst Rev. 2026.

Shi C, Dumville JC, Cullum N, et al. Beds, overlays and mattresses for preventing and treating pressure ulcers: an overview of Cochrane Reviews and network meta-analysis. Cochrane Database Syst Rev. 2021;8:CD013761. 

Langer G, Wan CS, Fink A, Schwingshackl L, Schoberer D. Nutritional interventions for preventing and treating pressure ulcers. Cochrane Database Syst Rev. 2024;2:CD003216.

Olá, sou Lisliane

Enfermeira pela USP, com especialização em saúde do adulto e do idoso pela USP e estomaterapeuta com habilitação em laserterapia. Atuo no tratamento avançado de lesões, estomias e na reabilitação de pessoas com incontinência fecal e urinária

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