O que é a anemia falciforme?

A anemia falciforme é uma doença genética hereditária caracterizada pela produção de hemácias (glóbulos vermelhos) em formato de foice. Essas células apresentam menor flexibilidade e podem obstruir os vasos sanguíneos, dificultando a circulação do sangue e o transporte de oxigênio para os tecidos.

Desenho representativo de uma hemácia saudável, redonda e com fluxo sanguíneo natural. Possui outra hemácia ao lado em formato de foice ou meia lua e com o fluxo sanguíneo obstruído devido ao seu formato, caracterizando a anemia falcifrme.

Fonte: Book – Homens com Úlceras Falcêmicas

O diagnóstico é realizado principalmente por meio do Teste do Pezinho, permitindo a identificação precoce da doença.

A doença falciforme tem origem genética e é mais frequente em pessoas com ascendência africana, sendo considerada um importante problema de saúde pública no Brasil.

Como a anemia falciforme afeta o organismo?

As hemácias falciformes podem causar episódios de vaso-oclusão, que bloqueiam a circulação sanguínea e reduzem a oxigenação dos tecidos. Como consequência, diversos órgãos podem ser afetados.

Entre as principais complicações estão:

  • Crises de dor intensa e recorrente;
  • Anemia hemolítica crônica;
  • Infecções frequentes;
  • Complicações renais;
  • Acidente Vascular Cerebral (AVC);
  • Úlceras de membros inferiores.

A intensidade dos sintomas varia entre os pacientes e pode levar a internações frequentes e impacto significativo na qualidade de vida.

O que são úlceras falcêmicas?

As úlceras falcêmicas são feridas crônicas que surgem principalmente nas pernas e representam uma das complicações mais comuns da doença falciforme.

Essas feridas se desenvolvem devido à combinação de:

  • Obstrução da microcirculação;
  • Inflamação crônica;
  • Hipóxia tecidual (falta de oxigênio);
  • Vasoconstrição persistente;
  • Lesão dos vasos sanguíneos.

A dificuldade de circulação reduz o aporte de oxigênio e nutrientes para a pele, comprometendo o processo de cicatrização e favorecendo o aparecimento de feridas crônicas.

Como identificar uma úlcera falcêmica?

As úlceras geralmente aparecem na região dos tornozelos (maléolo medial ou lateral), dorso do pé e terço inferior das pernas.

As principais características incluem:

  • Dor intensa e persistente;
  • Bordas elevadas e bem definidas;
  • Edema (inchaço) do membro afetado;
  • Alterações na coloração da pele ao redor da ferida;
  • Recorrência frequente.

Fonte: Artigo – Úlceras de perna em pacientes com anemia falciforme

As lesões podem surgir espontaneamente ou após pequenos traumas, picadas de insetos e escoriações.

Por que a cicatrização é mais difícil?

A cicatrização das feridas na anemia falciforme costuma ser lenta e complexa. Isso ocorre porque as hemácias falciformes reduzem o fluxo sanguíneo local e comprometem a oxigenação dos tecidos.

Além disso, o ambiente inflamatório persistente prejudica a atuação de células fundamentais para a reparação tecidual, como os fibroblastos, responsáveis pela produção de colágeno.

Como resultado, a ferida pode permanecer aberta por meses ou até anos, com elevado risco de recidiva após a cicatrização.

Tratamento das úlceras falcêmicas

O tratamento deve ser individualizado e realizado por uma equipe multidisciplinar.

Os principais objetivos são:

  • Controlar a dor;
  • Reduzir o edema;
  • Prevenir infecções;
  • Favorecer a cicatrização;
  • Evitar recorrências.

Coberturas com ação antimicrobiana, quando indicadas, podem auxiliar no controle da colonização bacteriana.

Tecnologias como a laserterapia de baixa intensidade também podem contribuir para redução da dor e estímulo à cicatrização.

Terapia compressiva

A terapia compressiva desempenha papel fundamental no controle do edema e na melhora do retorno venoso.

Quando indicada pelo profissional de saúde, pode auxiliar na redução da dor, otimização da circulação e aceleração da cicatrização.

Após o fechamento da ferida, o uso de meias de compressão pode ajudar a prevenir novas lesões.

Equipe de saúde envolvida

O tratamento das úlceras falcêmicas exige acompanhamento multiprofissional, incluindo:

  • Hematologista;
  • Enfermeiro estomaterapeuta;
  • Cirurgião vascular;
  • Angiologista;
  • Dermatologista;
  • Nutricionista;
  • Psicólogo.

A adesão ao tratamento é um dos fatores mais importantes para o sucesso da cicatrização.

Como prevenir úlceras falcêmicas?

A prevenção é a melhor estratégia para reduzir o risco de surgimento e recorrência das feridas.

Recomenda-se:

  • Hidratar diariamente a pele das pernas;
  • Ingerir líquidos adequadamente;
  • Utilizar sapatos confortáveis;
  • Usar meias sem costura;
  • Inspecionar os pés e pernas diariamente;
  • Evitar traumas e escoriações;
  • Utilizar repelente contra insetos;
  • Evitar permanecer longos períodos em pé;
  • Praticar atividade física conforme orientação médica;
  • Procurar assistência especializada ao primeiro sinal de lesão.

A importância da estomaterapia no tratamento das úlceras falcêmicas

A Estomaterapia é uma especialidade da enfermagem dedicada ao cuidado de pessoas com feridas, estomias e incontinências. No tratamento das úlceras falcêmicas, o enfermeiro estomaterapeuta desempenha um papel fundamental na avaliação especializada da lesão, na escolha das terapias mais adequadas e na prevenção de complicações que podem comprometer a cicatrização.

As úlceras falcêmicas são feridas crônicas, dolorosas e frequentemente recorrentes, capazes de impactar profundamente a rotina, a autoestima, a mobilidade e as relações sociais. Por isso, o cuidado vai muito além da troca de curativos.

O acompanhamento com um enfermeiro estomaterapeuta permite o controle adequado da dor, a redução do edema, o manejo da infecção, a indicação de coberturas avançadas e terapias complementares, além da orientação sobre os cuidados diários necessários para favorecer a cicatrização e prevenir novas lesões.

Quando acompanhados de forma especializada, os pacientes apresentam melhores condições para alcançar a cicatrização da ferida, reduzir o risco de recorrências e recuperar sua autonomia. O resultado é mais conforto, maior segurança para realizar atividades do dia a dia, melhor convivência familiar e social, além de um impacto positivo na qualidade de vida e no bem-estar físico e emocional.

Referências

Almeida MNCS, Lisboa ACVC, Rocha GRM, Sousa IEC, Alves IRM, Sales JIC. Cicatrização de úlceras de pernas em pacientes falciformes: revisão de literatura. Hematol Transfus Cell Ther. 2024;46(Suppl 4):S1047.

Nascimento DC, Souza NVDO. Homens com úlceras falcêmicas: aprendendo a cuidar para manutenção da qualidade de vida em família, sociedade e trabalho. Rio de Janeiro: Universidade do Estado do Rio de Janeiro; 2021. 16 p.

Granja PD, Quintão SBM, Perondi F, et al. Úlceras de perna em pacientes com anemia falciforme. J Vasc Bras. 2020;19: e20200054.

Olá, sou Lisliane

Enfermeira pela USP, com especialização em saúde do adulto e do idoso pela USP e estomaterapeuta com habilitação em laserterapia. Atuo no tratamento avançado de lesões, estomias e na reabilitação de pessoas com incontinência fecal e urinária

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